JOAQUIM COSTA
Certa manhã, ao entrar no Parque Mayer, onde parava com regularidade ouviu "uma coisa esquisita". Era um som diferente, vindo de uma jukebox colocada numa casinha que o tempo se encarregou de eliminar. Era Bill Haley & His Comets. Sem conhecimentos de inglês, Joaquim Costa decidiu deixar crescer a popa e as patilhas e iniciar-se na arte de cantar à sua maneira. Apesar da trapalhice, o timbre colocado ajudou-o, enquanto as engenhosas vocalizações davam para desenrascar e fazer boa figura. As primeiras demonstrações públicas do talento escondido não tardaram a aparecer. Um conhecido que tocava em conjuntos de baile acedeu a alinhar numas sessões de improviso no Jardim da Estrela. Juntavam-se ao pé de uma máquina de discos e passavam o tempo a bebericar uns cafés, entremeados por batuques nas mesas e uns temas dos States. Os toscos ensaios ao ar livre deram frutos. A banda, composta por seis elementos, soube da realização naquele local de uma feira cultural e dirigiu-se aos escritórios de Leitão de Barros, programador do espaço, para saber se podia participar. O grupo acabou por ser contratado. Ganhava 50 escudos por noite, uma fortuna para a altura, embora o acidental herói do rock se tenha aborrecido depressa. Ainda em 1959 cantou na Mitra, incluído no lote de artistas convocados para o Natal dos Hospitais, e não fecharia um dos anos de ouro da sua vida sem gravar um disco de 78 rotações na antigo Rádio Graça, objecto de culto eternizado por apenas 200 escudos. "Fui à Valentim, mostrei o disco e disseram-me para deixá-lo ali e fazer uma versão em português de um tema famoso. Um amigo ajudou-me a traduzir a letra, mas detestei aquilo. Sou um tipo desconfiado, tenho sempre um pé atrás, e achei que por intermédio da canção estavam a despachar-me, a dizer aquilo que não tiveram coragem de afirmar na cara." O outro exemplar da gravação ficara perdido no arquivo da Rádio Graça, que acabaria por fechar as portas. De um momento para o outro, Joaquim Costa via escaparem-se por entre os dedos os dois discos. Qual Indiana Jones à procura da arca perdida, deu início a uma busca desenfreada, mas sem sucesso. Perseverante, veio a encontrar um deles trinta anos após a gravação, na Feira da Ladra, local onde até há pouco tempo marcava o ponto todas as terças-feiras e sábados, para vasculhar preciosidades do rock’n’roll. "Ainda me lembro desse dia de 1989. Foi o mais feliz da minha vida, acho que já tinha perdido a esperança de encontrar o disco. Nunca mais o larguei." O fabuloso Costa, outro dos epítetos inventados para o descrever, passou parte das décadas de 60 e 70 a meio gás, com concertos nas mais variadas colectividades, casas de recreio ou de amigos. Esteve nos Jotas do Rock, duo com o qual ainda gravou à experiência na Rádio Renascença, embora o tema tenha acabado por passar lá pela uma da manhã. A sua última aparição em público foi já na década de 80, no ‘Passeio dos Alegres’, mítico programa de Júlio Isidro onde se tentava descobrir o Elvis Presley português. O "Elvis de Campolide" faleceu em 2008.DISCOGRAFIA
JOAQUIM COSTA CANTA ROCK N ROLL [7"EP, Meteorito Records, 2007]COMPILAÇÕES
PORTUGUESE NUGGETS 03 [LP, Galo de Barcelos, 2007]